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O mercado que não existe no CRM do fornecedor

Você viu que a operação brasileira de uma multinacional do seu setor roda uma plataforma de planejamento corporativo. A ferramenta claramente funciona, claramente existe no país, e claramente resolve o problema que você tem.

Você procura o fornecedor. E aí não acontece nada.

Não é uma recusa — seria mais fácil se fosse. É um formulário respondido por alguém em outro fuso, um contato que passa para uma equipe regional que passa para outra, uma proposta que não vem, uma pergunta técnica que fica sem resposta. A conversa não esquenta de nenhum dos dois lados.

A leitura natural é que a sua empresa é pequena demais para o fornecedor. Quase sempre não é isso.

A base instalada engana

Olhe quem roda plataformas de planejamento corporativo na América Latina e você vai encontrar nomes grandes. A conclusão óbvia é que o mercado está atendido.

Só que a maior parte dessas instalações não foi comprada aqui. São subsidiárias de multinacional: a licença veio dentro do contrato global, o rollout veio junto com um programa corporativo decidido em outro país, e o atendimento chega pela conta global. Ninguém no Brasil precisou achar um vendedor, homologar fornecedor estrangeiro ou justificar remessa ao exterior.

A matriz comprou. A operação local recebeu.

Isso significa que a referência que você está olhando — a empresa do seu setor, do seu tamanho, no seu país, usando a ferramenta — chegou nela por um caminho que não existe para quem não tem matriz fora.

Por que ninguém te atende

Aqui está o mecanismo, e ele não tem nada de conspiratório.

A receita da região chega ao fornecedor de qualquer jeito, pelos contratos globais. As subsidiárias entram na conta sem que ninguém precise vender nada localmente. Do ponto de vista do fornecedor, a região aparece nos números como atendida.

Se a receita chega sem canal, não há incentivo para montar canal. Sem canal, não há time de vendas que responda pelo país, não há pré-vendas para tocar uma prova de conceito, e a revenda que formalmente cobre a região muitas vezes não opera nela de verdade.

E sem canal, a empresa de capital local continua de fora — o que mantém a receita local em zero, o que confirma que não vale a pena montar canal.

O ciclo se fecha sozinho. Ninguém precisa ter tomado uma decisão ruim para ele existir.

O segmento que não aparece em estatística nenhuma

A parte mais incômoda: o pedaço realmente não atendido — a empresa grande de capital nacional, sem matriz no exterior — não aparece em lugar nenhum.

Não está no CRM do fornecedor, porque nunca virou oportunidade. Não está no relatório de mercado, porque relatório de mercado conta o que foi vendido. Não está na conversa do time regional, porque o time regional é avaliado pela carteira que já tem.

Um mercado que nunca foi abordado não vira demanda reprimida nos números. Vira ausência — e ausência se parece muito com "não tem mercado aqui".

Isso provavelmente não é um problema da América Latina

Aqui preciso ser honesto sobre o que sei e o que estou inferindo.

A América Latina é onde temos experiência direta com isso. O que descrevi acima é o que vemos acontecer, repetidamente.

Mas repare que o mecanismo não depende de nada específico da região. Ele depende de uma única razão: quanta receita chega via contrato global comparada a quanta exigiria esforço comercial local. Onde essa razão é alta, o canal não se justifica, e o mercado local fica fora.

Por essa lógica, o mesmo padrão deveria aparecer em qualquer lugar onde a presença das multinacionais chegou antes da operação comercial do fornecedor — Sudeste Asiático, boa parte da África, partes do Leste Europeu e do Oriente Médio. Não é uma afirmação sobre esses mercados: é o que o mecanismo prevê. Se você opera em algum deles e reconhece a descrição, provavelmente não é coincidência.

O que é seguro dizer é o contrário disso: onde o fornecedor tem operação comercial local de verdade, esse problema não existe.

O caso do IBM Planning Analytics no Brasil mostra bem o contraste. A IBM tem operação local há décadas — vende, fatura e atende aqui. Comprar licença de Planning Analytics no Brasil simplesmente não é um problema, e nunca vimos um caso em que fosse. A ferramenta não é mais barata nem mais simples que as outras; ela é alcançável, porque tem gente do outro lado.

A diferença, portanto, não é maturidade do mercado nem tamanho do comprador. É presença do fornecedor — e é por isso que ela deveria pesar na escolha tanto quanto qualquer linha da matriz funcional.

O que dá para fazer, do lado de quem quer comprar

Nada disso é fatalidade. Mas exige tratar o acesso como parte do projeto, e não como pressuposto.

Procure o nome. Antes de investir em avaliação funcional, descubra quem — com nome, time e fuso — responde pelo seu país do lado do fornecedor. Se não existe um nome, não existe canal, e essa é a informação mais importante que você vai obter no processo inteiro.

Entre pelo parceiro, não pela porta da frente. Quem implementa a ferramenta frequentemente tem mais acesso ao fornecedor do que você terá como prospect frio, e consegue registrar a oportunidade num lugar onde alguém é responsável por ela. É o caminho mais curto na maioria dos casos.

Pergunte sobre registro de oportunidade e programa de parceiros. Existindo um mecanismo formal, a sua conversa passa a ter dono. Não existindo, você acabou de descobrir uma coisa importante.

Trate disponibilidade como requisito funcional. Uma ferramenta 15% melhor na matriz de avaliação e inacessível na prática vale zero. Vale menos que zero, na verdade, porque consumiu meses de seleção.

Considere quem tem presença local. Às vezes a resposta certa é a plataforma que ficou em segundo lugar na avaliação e tem gente aqui — vendendo, implementando e atendendo. Não é rebaixar o critério; é reconhecer que suporte, prazo de resposta e continuidade também são critérios.

Comprar é só o primeiro obstáculo

Achado o caminho de compra, três coisas ainda determinam se a ferramenta é utilizável aqui — e todas as três costumam ser descobertas depois da assinatura.

Suporte no seu fuso e no seu idioma. Um incidente durante o seu fechamento atendido no próximo dia útil de outro continente é uma ferramenta indisponível, diga o contrato o que disser. Leia o SLA olhando para o relógio do seu fechamento, não para o número de horas prometido.

O que é local e a ferramenta não cobre. Isso não é tradução de interface: é folha com encargos, 13º, férias, provisões, dissídio e convenções coletivas; tributação brasileira, ainda por cima em transição; plano de contas estatutário e calendário fiscal. Ferramenta global modela o genérico muito bem — o específico é sempre seu para construir. E aqui a sua situação é pior que a da subsidiária: ela pode viver com o modelo global e alguns ajustes locais, porque o corporativo dela é o que manda. Para você, o requisito local é o requisito.

Quem implementa e sustenta. Ser vendida no mercado não significa haver gente capaz de implementar, sustentar e — principalmente — ser contratada por você depois. Um mercado com três profissionais certificados é um mercado onde o seu projeto depende da agenda de três pessoas, e onde a saída de alguém do seu time interno vira risco existencial do modelo. Essa é a pergunta que quase ninguém faz na seleção e a que mais determina se o modelo estará vivo daqui a três anos.

Se você é subsidiária, nada disso é problema seu

Você tem caminho de compra — o contrato global. Sua dificuldade é outra: descobrir o que aquele contrato de fato cobre no seu país, porque ele raramente cobre tudo que o escopo pressupõe.

E, sem querer, é você a referência que confunde o mercado: é a sua operação que todo mundo olha para concluir que a ferramenta está disponível por aqui.


Somos uma consultoria de planejamento com time no Brasil e domínio de Anaplan e IBM Planning Analytics, e atuamos dos dois lados dessa linha — com subsidiárias dentro de programas globais e com empresas de capital local tentando chegar às mesmas ferramentas. Fale com a gente se você está tentando acessar uma plataforma que parece disponível no mercado e não está disponível para você.

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