O que realmente mudou nas ferramentas de planejamento nos últimos anos
Quem lista release notes está vendendo. A leitura útil de um roadmap é outra: quais mudanças alteram a forma de fazer o projeto — e quais ainda não alteram nada, por mais bonita que seja a demo.
Abaixo, cinco movimentos que aconteceram de verdade nos últimos anos nas plataformas com que trabalhamos, e uma leitura honesta de onde cada um está.
1. A IA saiu do forecasting e foi para dentro do modelo
A primeira onda foi machine learning aplicado a previsão: PlanIQ no Anaplan (hoje evoluindo para Anaplan Forecaster), forecasting preditivo dentro do PAW no lado IBM. É real e funciona — mas é estreito: precisa de histórico e melhora um número.
A segunda onda é a que muda o projeto: assistentes que leem, explicam e constroem o modelo. CoModeler para criação de estrutura por linguagem natural, CoPlanner para análise conversacional, e do lado IBM os agentes construídos sobre watsonx.
Onde isso já entrega valor hoje:
- Exploração e documentação. Perguntar "o que alimenta essa conta" e receber uma resposta em segundos vale muito em modelo de dez anos que ninguém documentou. Boa parte do custo de sustentar modelo legado é arqueologia.
- Explicação de variação. "Por que esse número mudou entre as versões" é a pergunta mais repetida em qualquer ciclo de planejamento, e finalmente tem atalho.
Onde ainda é demo:
- Gerar estrutura de produção a partir de um prompt. Gera alguma coisa plausível. E plausível é o pior resultado possível num modelo de planejamento — passa no teste de fumaça e falha no fechamento, quando já tem gente confiando no número.
O efeito líquido, hoje: menos tempo documentando e navegando, o mesmo tempo modelando. Já é bastante. Só não é o que a demo promete.
2. Motor de cálculo deixou de ser um só
Por décadas, escolher a ferramenta era escolher o motor. Isso mudou.
O Anaplan passou a ter Polaris ao lado do HyperBlock, com tratamento diferente de esparsidade — e explosão de dimensão deixou de ser um "não" automático. A IBM seguiu com o motor TM1 e mudou a arquitetura ao redor dele (assunto do post sobre a v12).
Efeito prático: "cabe na ferramenta?" virou uma pergunta com mais de uma resposta por ferramenta — e uma pergunta que precisa ser feita mais cedo, porque a escolha do motor não é fácil de reverter depois do modelo pronto.
3. O ciclo de vida do modelo virou software
Promoção versionada entre ambientes, deployment rastreável, paridade entre dev, QA e produção. ALM no Anaplan, integração com git na v12 do Planning Analytics.
É a mudança menos glamourosa da lista e provavelmente a de maior efeito real na qualidade da entrega. Quem sustenta modelo grande sabe que a maior parte dos incidentes graves não vem de erro de fórmula: vem de alguém publicando a coisa errada no ambiente errado.
4. A camada de dados saiu do projeto de planejamento
Cinco anos atrás era normal a ferramenta de planejamento ser também o lugar onde o dado era limpo, deduplicado e conciliado. Hoje o padrão é o lakehouse ou o data warehouse corporativo como origem, com a ferramenta de planejamento consumindo dado já tratado.
Ferramentas de orquestração de dados nas próprias plataformas empurram nessa direção, e a expectativa do cliente acompanhou.
Efeito prático: a discussão de integração mudou de lugar — passou para antes do projeto e para fora dele. E um projeto de planejamento sem camada de dado definida hoje parece obviamente incompleto, de um jeito que não parecia antes.
5. O Excel voltou — e desta vez com governança
Houve um período em que toda plataforma queria tirar o usuário da planilha. Não funcionou, e as plataformas pararam de tentar.
PAfE, os add-ins do Anaplan e a evolução geral das interfaces aceitaram o inevitável. A mudança real não é o Excel ter voltado: é que a planilha virou uma janela para um modelo governado, em vez de ser o modelo. O número continua tendo dono e origem mesmo quando o usuário o consome numa célula.
O que não mudou
A parte difícil continua exatamente onde estava: combinar o que se planeja, em que nível, com quem, e com qual número.
Nenhuma novidade dos últimos anos tornou essa conversa mais fácil. As ferramentas ficaram muito melhores em tudo que fica em volta da decisão, e exatamente tão boas quanto antes na decisão.
Vale lembrar disso quando um roadmap for apresentado como solução para um problema que é de processo.
Como ler um roadmap de fornecedor
Três perguntas que economizam frustração:
- Está GA na minha região e no meu tier de licença? Recurso anunciado em conferência e recurso disponível no seu contrato são coisas diferentes — e às vezes separadas por anos.
- Funciona sobre o meu modelo ou sobre um modelo ideal? A demo roda em base limpa, com dimensões pequenas e nomenclatura consistente. O seu modelo não é assim.
- Se eu depender disso, o que acontece se for descontinuado? As plataformas estão lançando e aposentando recursos mais rápido do que costumavam. Vale saber qual é o plano B antes de construir em cima.
Trabalhamos com IBM Planning Analytics e Anaplan lado a lado, o que nos deixa avaliar plataforma sem torcida — veja a comparação entre TM1 e Anaplan ou fale com a gente.